15 de agosto de 2022

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“O sindicato continuará atuante na defesa do serviço público”, diz a nova secretária-geral do Sindiserf/RS, Eleandra Raquel da Silva Koch   Aos 45 anos, a servidora do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Eleandra Raquel da Silva Koch é a primeira mulher a assumir o comando do Sindicato dos Servidores e Empregados Públicos […]

O sindicato continuará atuante na defesa do serviço público”, diz a nova secretária-geral do Sindiserf/RS, Eleandra Raquel da Silva Koch

 

Aos 45 anos, a servidora do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Eleandra Raquel da Silva Koch é a primeira mulher a assumir o comando do Sindicato dos Servidores e Empregados Públicos Federais do Rio Grande do Sul (Sindiserf/RS). “É uma honra representar as mulheres e as trajetórias de inúmeras companheiras que construíram o Sindiserf, que dedicaram as suas vidas na construção desse sindicato, mas nunca nenhuma delas esteve à frente da secretaria-geral ou da presidência”, declara.

 

A entidade representa 42 órgãos no estado e, nos últimos meses, está à frente da luta contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 32, que propõe a reforma administrativa, mas, na prática, significa o fim do serviço público. Além disso, o funcionalismo iniciou 2022 reivindicando o reajuste salarial linear de 19,99%, valor referente às perdas acumuladas durante os três anos de governo Bolsonaro. Vale lembrar que a maioria dos servidores do Executivo está há pelo menos cinco anos sem qualquer reajuste. “É necessário fazer essas duas coisas ao mesmo tempo, derrotar a PEC 32 e lutar pelas nossas carreiras”, afirma Eleandra.

 

 

A dirigente garante que na gestão 2022-2024, a categoria pode esperar “um sindicato que continuará atuante na defesa do serviço público, contra a privatização do mesmo, em defesa da valorização das nossas carreiras e de mudanças estruturais que possam construir um novo projeto de futuro para o Brasil”. Nesta entrevista, Eleandra diz ainda que “o Sindicato não deve perder o seu foco fundamental que é fazer política em defesa do trabalhador e da trabalhadora do serviço público, mas precisa pensar política de formação, aprofundar a sua comunicação com a categoria e pensar também em novas formas de ter presença cotidiana na vida das pessoas.”

 

Confira a íntegra da entrevista:

 

O que a categoria pode esperar dessa nova gestão do Sindiserf/RS?

A categoria pode esperar um sindicato que continuará atuante na defesa do serviço público, contra a privatização do mesmo, em defesa da valorização das nossas carreiras e de mudanças estruturais que possam construir um novo projeto de futuro para o Brasil, para que o povo brasileiro possa se libertar dessa política nefasta de desmonte do país, da soberania e do serviço público, representado por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

 

Os servidores e os trabalhadores tem um papel fundamental na construção de um novo projeto de futuro, de esperança. Mas, sem deixar de priorizar a luta em defesa do serviço público e da valorização das nossas carreiras, pois os servidores pagam a conta pela política do governo Bolsonaro com o arrocho salarial que já atinge mais de 27% das nossas remunerações, o congelamento dos nossos salários e sucateamento do serviço público. Então, os colegas e as colegas estão convidados a fortalecer o Sindiserf e a nossa luta pelo serviço público, para que juntos possamos construir melhores condições de trabalho, valorização salarial e colaborar com a construção de um novo projeto de futuro.

 

É a primeira vez que uma servidora está à frente da entidade. Qual a importância desse fato? Fale um pouco da sua trajetória.

Em primeiro lugar, é uma honra representar as mulheres e as trajetórias de inúmeras companheiras que construíram o Sindiserf, que dedicaram as suas vidas na construção desse sindicato, mas nunca nenhuma delas esteve à frente da secretaria-geral ou da presidência. Então, em primeiro lugar, me reconheço como resultado da luta dessas mulheres que construíram esse espaço, esse protagonismo e que tiveram esse compromisso.

 

 

Eu sou oriunda de uma família onde as mulheres, no caso a minha mãe, uma professora, sempre acreditou que era possível construir um mundo melhor para todos. Ela foi a primeira presidenta de uma associação de moradores na cidade onde eu morava, então foi no bojo dessa luta que lembro que me reconheci como uma militante, no sentido de alguém que queria se engajar, se associar para construir mudanças desde muito cedo. Fui militante do movimento estudantil secundarista, fui presidenta do meu grêmio, participei da união municipal dos estudantes secundaristas e depois fui para universidade, militei lá também, fui do DCE. Tive, ainda, uma militância partidária, porque também acho importante tomar partido, participar da construção de um projeto mais amplo de sociedade. Então tenho essa trajetória, movimento estudantil, participação popular, a referência da minha mãe como uma mulher que mostra que as mulheres podem fazer política.

 

Qual o principal desafio do Sindiserf/RS no próximo período?

Conseguir mobilizar os trabalhadores e trabalhadoras nos seus locais de trabalho a partir da discussão sobre a defesa do serviço público, o direito ao reajuste linear dos nossos salários, das nossas carreiras que estão achatadas, arrochadas, e ao mesmo tempo sabendo que se a gente não derrotar a PEC 32 nada disso será possível. Então é necessário fazer essas duas coisas ao mesmo tempo, derrotar a PEC 32 e lutar pelas nossas carreiras. No entanto, a gente precisa fazer parte da mudança política que precisamos construir no Brasil em 2022. Portanto, a gente precisa que os servidores públicos tenham protagonismo na revogação das reformas nefastas que foram feitas no governos Temer e Bolsonaro e na construção de mudanças estruturais que possam dar condições objetivas para se construir políticas efetivas de distribuição de renda, de democratização dos meios de comunicação, de avanço de debates importantes no que diz respeito a luta das mulheres, ao combate de todas as formas de lgbtqia+fobia, de combate ao racismo.

 

O desafio é esse, como defendemos as nossas carreiras, derrotamos a PEC 32 e ao mesmo tempo construirmos um projeto de futuro, mas que seja um projeto capaz de ser construído pelo conjunto da categoria, que faça parte das discussões que somos capazes de fazer no cotidiano, nos locais de trabalho. O desafio é construir esse engajamento que vá para além das direções sindicais e que possa encantar as pessoas.

 

 

Os sindicatos, como um todo, estão perdendo representatividade. E no caso de entidades de classe de servidores, há o fato que muitas vezes a categoria não se renova, pois não há realização de concursos públicos. Como reverter isso e fortalecer as entidades sindicais?

Essa pergunta é muito importante e é um desafio na verdade. Diz respeito aos desafios que já referi antes. Como a gente consegue garantir que as pessoas, os trabalhadores e trabalhadores do serviço público compreendam que é necessário fortalecer a sua ferramenta coletiva de mobilização que é o Sindicato. Mas é muito mais fácil fazer isso num processo de luta, de mobilização. Então é por isso, que precisamos construir, acumular muita luta política que esteja sustentada pelas contribuições que são feitas nos locais de trabalho e na base da categoria. Para além disso, acredito que o Sindicato não deve perder o seu foco fundamental que é fazer política em defesa do trabalhador e da trabalhadora do serviço público, mas precisa pensar política de formação, precisa aprofundar a sua comunicação com a categoria, e pensar também em novas formas de ter presença cotidiana na vida das pessoas. Como iniciativas culturais, temos o exemplo do Sinpro que construiu a ECARTA que é um importante centro de atividades culturais para a categoria. Se há política e se há luta, podemos pensar em questões mais associativas, como por exemplo, convênios que não onere o Sindicato, mas que possa beneficiar, fidelizar os sócios no sindicato cotidianamente, mas só é possível pensar essas ações associativas se tivermos luta e unidade sindical. E acho que é possível pensar isso a partir das novas formas do movimento sindical e do novo modelo trabalho no serviço público, como o trabalho remoto que é novo, mas já apresenta inúmeras precarizações.

 

 

Qual a principal ameaça que um governo conservador e neoliberal representa para uma sociedade que precisa de um serviço público de qualidade?

A principal ameaça é de fato o aniquilamento da prestação de serviços públicos, que vira um novo ativo, muito importante para o mercado. Imaginemos o que seria desse país se não houvesse o SUS durante a pandemia, se não houvesse mínimas condições de proteção social que foram construídas durante os governos de Lula, Dilma e anteriores, e que o Bolsonaro não conseguiu destruir. Foram essas conquistas que já existiam que garantiram que houvesse o auxílio emergencial de R$ 600,00, que fez a diferença na vida de tantas pessoas e o governo não queria pagar. Então o principal risco de um governo neoliberal é a aniquilação dos serviços públicos, dos direitos da população, a mercantilização desses direitos e serviços. E esse é o projeto do governo Bolsonaro, claro que tudo isso num contexto de subordinação econômica, de entreguismo de tudo aquilo que vemos nos nossos bens coletivos naturais. É um governo que acredita no desmonte, na destruição. O risco é que eles consigam completar essa agenda entreguista. É contra isso que precisamos lutar.

 

 

Fonte: Sindserf/RS

Fotos: Arquivo Sindiserf/RS