20 de setembro de 2020

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Bolsonaro desrespeita consulta na UFRGS e nomeia terceiro colocado como novo reitor

A escolha vinha sendo articulada pelo deputado

Entidades repudiam escolha do professor Bulhões e marcam protesto para quinta-feira

 

Em mais uma intervenção na autonomia das universidades brasileiras, o presidente Jair Bolsonaro nomeou o professor Carlos André Bulhões Mendes como novo reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) para os próximos quatro anos. A medida foi publicada no Diário Oficial da União desta quarta-feira (16) e contraria a consulta feita à comunidade acadêmica no dia 14 de julho. Pelas regras que estabelecem o voto dos docentes com peso de 70%, enquanto o dos técnicos-administrativos e dos estudantes com 15%, foi vencedora a chapa dos atuais reitor e vice-reitora, Rui Oppermann e Jane Tutikian.

 

A escolha vinha sendo articulada pelo deputado federal Bibo Nunes (PSL), conforme ele havia anunciado na imprensa nas últimas semanas. A chapa de Carlos André Bulhões e Patrícia Helena Lucas Pranke ficou na terceira posição na lista tríplice da consulta, atrás da chapa de Rui e Jane, e da chapa de Karla Maria Müller e Cláudia Wasserman, que recebeu o maior número de votos, mas por motivo de diferença de paridade ficou em segundo lugar.

 

Pela legislação nacional, é uma prerrogativa do presidente da República indicar o reitor das federais brasileiras a partir da lista tríplice encaminhada pelas universidades. Porém, desde o governo Lula, é de praxe que o mais votado nas consultas internas seja o indicado. Situação que mudou drasticamente sob Bolsonaro. Desde o início de seu governo, já foram pelo menos 14 nomeações de reitores ou diretores de instituições federais de ensino que não encabeçavam a lista ou sequer constavam entre os nomes indicados.

 

Repúdio à intervenção e articulação da resistência

Nesta manhã, a deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) protocolou na Câmara de Deputados um projeto de decreto legislativo pedindo a suspensão da medida. No Twitter, diversas lideranças políticas e entidades se manifestaram contra a imposição do terceiro colocado. Para a União Nacional dos Estudantes (UNE), a intervenção é inaceitável. “Nesse governo, a autonomia universitária é desprezada e o projeto de desmonte da educação avança”, afirma.

 

A deputada estadual Luciana Genro (PSol) destacou que a intervenção é uma ação política do governo Bolsonaro “que com certeza será respondida com muita luta pelos estudantes, servidores e professores da universidade”. Para o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), “trata-se de fato gravíssimo que destrói uma conquista de 30 anos da comunidade universitária e da sociedade. Não podemos aceitar calados a escalada autoritária”.

 

Desde o anúncio da possível intervenção, entidades de técnico-administrativos e professores já se manifestavam contra a indicação de Bulhões. Em nota, a Seção Sindical do ANDES-SN na UFRGS reforçou a necessidade de democracia. “Defendemos a soberania da escolha da comunidade universitária e repudiamos as tratativas e tentativas, anunciadas por parlamentares e pela imprensa bolsonarista, para nomeação do candidato classificado em terceiro lugar na consulta”, diz o texto.

 

O sindicato dos técnicos-administrativos, a ASSUFRGS, também lançou nota em defesa da autonomia universitária. “Diante dos votos depositados na consulta à Reitoria pelos três segmentos da UFRGS, ficou evidenciado que a comunidade universitária não quer a extrema-direita no comando da Universidade. Nesse sentido, qualquer tentativa de Bolsonaro de nomeação que contrarie a vontade da comunidade da UFRGS será vista como uma afronta à Autonomia Universitária, evidenciando-se uma intervenção externa, à qual a comunidade da UFRGS resistirá com firmeza”, destaca a entidade.

 

Por sua vez a ADUFRGS-Sindical defendeu a nomeação do primeiro da lista como reitor da UFRGS. “A comunidade da UFRGS fez sua escolha e decidiu que o atual reitor Rui Vicente Oppemann deve ter mais 4 anos de mandato, para dar continuidade ao bom trabalho que vem realizando no cargo de reitor. Por mais que se respeite os demais candidatos, eles não foram os escolhidos e não possuem legitimidade para serem nomeados como reitor”, ressalta.

 

Protesto nesta quinta

“Não vamos aceitar a intervenção bolsonarista na UFRGS”, destaca o DCE da UFRGS nas redes sociais. Uma manifestação contra a intervenção e contra os cortes no orçamento da universidade foi convocada pela entidade estudantil, em conjunto com a ASSUFRGS, a Associação de Pós-Graduandos (APG) e 37 diretórios acadêmicos. O protesto será nesta quinta-feira (17), às 13h, em frente à Reitoria da UFRGS.

 

Fonte: Brasil de Fato