13 de agosto de 2020

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Líderes em casos de covid têm governos conservadores ou demoraram a adotar isolamento

Aliada à densidade populacional e ao alto índice

Número de infectados supera os 5 milhões com resultados dramáticos para nações que ignoraram o isolamento social

 

Apesar da diversidade observada entre os cinco países que mais registram casos da covid-19 no mundo, pelo menos duas características podem ser encontradas em quase todos: o conservadorismo político ou a falta de atenção a recomendações da ciência. Por conta disso, nesses lugares, as medidas restritivas vieram tarde.

 

Aliada à densidade populacional e ao alto índice de pessoas nos grupos de risco, a continuidade das atividades econômicas em momentos cruciais para controle da pandemia criou cenários críticos. Os sistemas de saúde ficaram sobrecarregados e houve situações em que as redes funerárias não conseguiram atender à demanda, impactadas pela quantidade de mortos.

 

Na lista das nações com maior número de infectados estão Estados Unidos, Rússia, Brasil, Reino Unido e Espanha. Elas somam mais de 2,6 milhões casos, mais da metade dos 5,1 milhões em todo o mundo, eles som. O médico e mestre em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo, Thiago Henrique Silva, explica que há duas fases essenciais para criar formas de enfrentar crises como esta – parte desses países falharam na fase inicial desse processo.

 

A primeira etapa, chamada de fase de contenção, é colocada em prática a partir do registro dos primeiros casos. Trata-se de um estágio rígido de rastreamento, testagem e isolamento. A intenção é erradicar o vírus, mas a partir do momento em que o contágio comunitário torna inviável saber a origem das contaminações, esse trabalho fica impossibilitado.

 

Passa-se então à fase de mitigação, quando o objetivo é diminuir as contaminações. Desde o início da circulação do vírus na China até a chegada da doença nos continente europeu e americano, as nações tiveram alguns meses para se preparar, tempo que poderia ser essencial para elaborar a fase de contenção. A falta de atenção aos alertas científicos, no entanto, colocou os governos, principalmente os conservadores, distantes dessa possibilidade.

 

“A questão da ideologia anti-ciência, por assim dizer, ela coloca esses países muito em maus lençóis, principalmente porque você esquece toda a preparação que poderia ter. Você atrasa toda a fase de preparação que a fase contenção permite. Aqui no Brasil a gente teve mais ou menos 60 dias entre a descoberta do tamanho da epidemia e a chegada dos primeiros casos aqui. Então, a gente teve tempo de se preparar e não se preparou porque nós temos essas características alinhadas com esses países.” (Ouça a entrevista completa com o  médico Thiago Henrique Silva no player do início da matéria.)

 

Brasil, Estados Unidos e Reino Unido

Em pelo menos três países na lista dos que mais têm casos, é possível dizer que a postura inicial dos governos conservadores e populistas, contra o isolamento e minimizando os impactos da doença, contribuiu muito para o número de casos. Jair Bolsonaro no Brasil, Donald Trump, nos Estados Unidos e Boris Johnson, no Reino Unido, deram declarações contrárias à prática e favoráveis à normalidade da economia.

 

Trump viu a pandemia crescer frente a um sistema de saúde privatizado, caro e inacessível para parte da população e os Estados Unidos passaram a adotar medidas de isolamento. Os estados mais atingidos, como Nova Iorque, foram mais rígidos. O número de novos casos se estabilizou nessas regiões, mas não parou de crescer no país. Ainda assim, em 16 de abril, Trump anunciou um plano de afrouxamento das medidas.

 

Alguns estados iniciaram o processo de abertura sem seguir nem mesmo esse planejamento. O aumento de novas contaminações não só continua crescendo, agora há também novos focos da doença em áreas rurais e no interior. Crescem também os registros da covid-19 em fábricas, frigoríficos, prisões, asilos e pontos comerciais.

 

No Reino Unido, Boris Johnson também voltou atrás e adotou medidas que restringem a circulação. O próprio primeiro ministro foi infectado e ficou internado em uma UTI. Ao sair do hospital, disse que devia a vida ao Sistema Nacional de Sáude (NHS). No entanto, o enfrentamento da pandemia no país foi marcado por denúncias de falta de equipamento nas unidades de saúde. Segundo o governo, a reabertura dos serviços e a volta à normalidade, previstas em um plano anunciado no dia 11 de maio, vêm sendo realizadas de maneira criteriosa.

 

O poder público anunciou nesta semana um esforço inédito para testes ao maior número possível de pessoas com sintomas. Na semana que vem haverá uma nova avaliação sobre os próximos passos para o fim do isolamento. Mas o anúncio de que hospitais poderiam voltar a realizar procedimentos não emergenciais e adiados por conta da pandemia colocou sindicatos em alerta. Eles exigem a garantia de equipamentos de segurança e defendem o pagamento de horas extras.

 

O professor do Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Edimburgo, Oliver Turner, aponta como caraterística comum o foco limitado nas políticas de saúde pública.

 

“Inicialmente eu diria que esses países têm coisas em comum, mas a situação é complicada e há outros fatores além da politica. Mas certamente Brasil, Reino Unido e Estados unido, o que eles têm em comum é que eles procuram proteger a economia primeiro e não abordaram a saúde pública. Eles têm governos em que a primeira prioridade não é necessariamente a saúde pública, mas proteger os governos, ou porque querem ser reeleitos ou porque têm muito medo da reação popular.”

 

O médico Thiago Henrique Silva diz que as escolhas econômicas do governo brasileiro trazem ainda mais riscos.

 

“O Brasil é o único país que tem liderança populista de direita no mundo que tem um sinal trocado entre economia e política. Todos eles adotam políticas protecionistas no âmbito da economia. Essa questão do protecionismo na economia acaba refletindo em uma proteção social maior para dentro no país. Não necessariamente porque você quer fazer políticas sociais, mas porque você tenta proteger o emprego dentro do país. Isso é completamente diferente no Brasil.”

 

Segundo o médico o neoliberalismo radical da equipe de Paulo Guedes, ministro da Economia no Brasil, afasta ainda mais essa possibilidade.

 

“Como nosso sinal é trocado, como a gente dependeu de poupança externa para retomar o emprego desde o primeiro dia de governo – sempre a conversa era privatizar para atrair investidor externo, entregar para os outros para tentar  retomar emprego dentro do marco neoliberal estrito que á cabeça do Paulo Guedes, você não tem saída. Todos os países do mundo estão com uma saída keynesiana, desenvolvimentista, do estado protegendo a economia. Aqui no Brasil estão tentando aproveitar para dilapidar o resto da economia, achando que a gente vai retomar o emprego com poupança externa no momento da pandemia. Como é que você conta com poupança externa no momento da pandemia? Não existe!”

 

Rússia e Espanha

Entre os países que mais registram casos da covid-19, o caso da Rússia surpreende pela baixa letalidade. O resultado pode ter relação com o número alto de testes que vêm sendo realizados e com um controle maior da doença ainda nos estágios iniciais. Em Moscou, o prefeito Sergei Sobyanin anunciou que até o fim deste mês seriam realizados mais de 200 mil testes por dia. Os resultados, segundo ele, vão nortear as decisões sobre o isolamento.

 

O país adotou medidas restritivas internas relativamente rápidas, mas demorou para fechar as fronteiras. Críticos do governo de Vladimir Putin afirmam que há subnotificação de óbitos e que mortes pela covid-19 estariam sendo registradas como outras doenças.

 

A Espanha é o único que não tem um governo conservador entre os países que mais registram casos da covid-19. No entanto, não adotou medidas de isolamento social rígidas no início da pandemia e viu os índices de contaminação comunitária e mortes aumentarem expressivamente. A situação se agravou frente ao grande número de idosos e casas asilares no país.

 

Em resposta, o país ibérico teve que estabelecer um rígido processo de isolamento, que durou 60 dias e agora começa a ser revertido. A chamada desescalada do confinamento, no entanto, deixou de fora cidades como Madrid e Valência, que registraram grande número de casos.

 

Com a decisão, grupos de direta tomaram as ruas do bairro de Salamanca, o mais caro da cidade. A precaução gerou também um rompimento entre a governadora madrilena, Isabel Díaz Ayuso (Partido Popular e o presidente Pedro Sánchez (Partido Socialista Espanhol) e a polêmica prossegue.

 

Na outra ponta

Sejam quais forem as características e medidas tomadas por essas nações, fica explicitado que o isolamento social causa impactos consistentes no número de casos, na velocidade com que a pandemia se espalha e na contenção do vírus.

 

Do lado dos países que tiveram sucesso no controle da covid-19 estão governos que impuseram ações rígidas de isolamento social. Tão diversos quanto os que mais têm casos, Portugal, Nova Zelândia, Vietnã, China e Coreia do Sul, por exemplo, devem enfrentar menos dificuldades para sair da crise.

 

O professor Oliver Turner ressalta a ironia da situação. Nações conservadores, que focaram seus esforços na proteção dos mercados e não das pessoas, devem demorar mais para retomar as perspectivas de crescimento. A conclusão, segundo Turner, é óbvia: conter a pandemia e salvar vida se mostra um modo mais eficaz para preservar a economia.

 

“Todos os países no mundo que lidaram com isso de maneira mais efetiva, a maior parte deles está na Ásia. E o que eles fizeram foi reagir muito rápido, a partir da perspectiva das políticas públicas de saúde. Se você está procurando proteger pessoas, há algumas coisas que você pode fazer muito rápido, como testes e isolamento social. Ironicamente, claro, isso significa que eles protegeram a economia, porque poderão abrir mais rapidamente.”

 

 

Fonte: Brasil de Fato