17 de novembro de 2018

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O que as forças progressistas podem fazer agora

Os recados foram dados: Jair Bolsonaro declarou que ativistas serão varridos, Eduardo Bolsonaro falou em fechar o STF, e a Polícia Federal e o TSE censuraram atividades em 17 universidades poucos dias antes da eleição. Não há dúvidas de que teremos dias duríssimos pela frente em um regime híbrido, que mistura velhas e novas formas […]

Os recados foram dados: Jair Bolsonaro declarou que ativistas serão varridos, Eduardo Bolsonaro falou em fechar o STF, e a Polícia Federal e o TSE censuraram atividades em 17 universidades poucos dias antes da eleição. Não há dúvidas de que teremos dias duríssimos pela frente em um regime híbrido, que mistura velhas e novas formas de controle e autoritarismo com verniz democrático.

 

A vitória de Jair Bolsonaro aterroriza por muitos motivos, seja pela falta completa de projeto nacional, seja pela ausência de clareza em relação aos rumos institucionais que suas pulsões autoritárias e suas alianças desqualificadas podem levar. Teremos ministros obtusos, apoiados por uma grande parte do congresso e por governadores da mesma laia. Além disso, até o momento, nosso maior inimigo não é apenas o próprio Bolsonaro ou seus aliados militares e sua fantasia com tortura, mas também o que ele representa e autoriza: a simbologia das armas e a faixa de terror molecular já insaturada no cotidiano das minorias.

 

Mas o Brasil de 2018 não é o mesmo de 1964. Novos movimentos explodiram nas últimas décadas e uma grande parte de brasileiros disse não ao fascismo. Não haverá um novo Ato Institucional nº 5, o mais duro da ditadura militar – que cassou e perseguiu políticos, jornalistas e militantes – porque nós não daremos trégua. Jair Bolsonaro terá que jogar o jogo da democracia e seguir a constituição de 1988. Nosso desafio agora é fazer com que ele se pareça mais com Donald Trump, que tem uma agenda ultradireitista, do que com Rodrigo Duterte, um presidente punitivista; mais com Fernando Collor, que lançou mão de políticas liberais, mas não perseguiu críticos como o fez Emílio Médici, o mais cruel dos ditadores.

 

Para que isso ocorra, o campo progressista tem algumas tarefas urgentes daqui para frente. E isso exige estratégia. Baixada a poeira e recuperados da dor que tem nos feito adoecer há semanas, é preciso pensar em termos de redução de danos: como evitaremos ainda mais violência, censura e terror?

 

A resposta, não resta dúvida, é que precisamos menos “te encontro no porão do DOPS” e mais Mano Brown; menos manifesto de intelectuais e mais conversa olho no olho, ao bom e estilo de banquinha de bolo “vamos conversar?”, que se multiplicaram no Brasil no movimento #viravoto.

 

Se a esquerda hegemônica continuar agindo como nos últimos anos – fundamentalmente antipopular e autocentrada–, o autoritarismo encontrará solo cada vez mais fértil. Já tenho visto colegas e amigos falando em deixar o país como uma forma de exílio. É uma opção de privilégio, pois quem vai pagar a conta deste governo tende a ser a menina preta, lésbica e periférica no ônibus voltando à meia-noite para a casa depois de um longo dia de trabalho.

 

Exílio pode vir a ser, de fato, a única opção para todos nós que acreditamos no pensamento crítico. O cerco da liberdade de expressão no jornalismo e nas universidades está se fechando. Mas antes de jogar a toalha, convém fincar os dois pés aqui para reivindicar cada resquício democrático que foi conquistado.

 

O problema de ficar escrevendo nas redes sociais que dia 1º de janeiro começa a ditadura é justamente o fato que este risco existe. Por se tratar de um perigo real, não podemos banalizar essa narrativa numa onda de medo. É hora de lembrar a Bolsonaro que a sociedade mudou, que as minorias conquistaram espaços e que o povo, assim como o colocou no poder, pode retirá-lo a qualquer momento.

 

Estudando o fenômeno do bolsonarismo e observando de perto a imensa esperança depositada em sua figura por uma parcela do precariado brasileiro, estou convicta que a insatisfação popular virá muito em breve. Diante desse cenário, o risco de radicalização do seu governo (uma espécie de novo AI-5, o ato mais duro da ditadura militar em perseguição de críticos ao regime) é enorme. Isso porque Bolsonaro terá que apontar culpados, inimigos internos e bodes expiatórios para justificar seu desastre.

 

Além disso, pode haver demanda do próprio povo para retirá-lo do poder e colocar o General Mourão em seu lugar – o que já é bastante falado nos circuitos bolsonaristas: “Se ele não cumprir o que prometeu ou se for corrupto, o povo tira de novo.”

 

Para evitar a radicalização desse cenário, temos que atuar em duas frentes. A primeira é criar uma barreira de contenção que force o funcionamento das instituições por meio de uma amplo movimento democrático que inclua ativistas, juristas, intelectuais, professores, jornalistas, artistas e empresários. Pessoas liberais, progressistas e de esquerda precisam estar reunidas num conjunto de ações programáticas. É fundamental que isso ocorra de forma suprapartidária e, principalmente, que não seja apenas uma estratégia petista para ganhar as próximas eleições.

 

Bolsonaro já aprendeu com Trump que é possível ignorar o establishment. Pela lógica, manifestos de intelectuais tendem a não fazer cócegas em governos que seguem essa linha. É preciso, portanto, ação de baixo e de cima. De um lado, necessitamos da agitação nas ruas dos novíssimos movimentos sociais autônomos, como o próprio #elenão, que se organizou de forma suprapartidária. De outro, precisamos nos aliar a sujeitos e instituições que tenham poder de barganha para pressionar por medidas democráticas.

 

A segunda medida para evitar a radicalização do autoritarismo bolsonarista é muito mais desafiadora e complexa – e nasce da interrogação básica do que fazer com a insatisfação popular quando ela surgir. Os eleitores de Bolsonaro foram seduzidos pela mobilização política populista, movidos por onda de contágio que foi espalhando medo e uma esperança de mudança radical. É muita expectativa popular para pouco projeto, pouca equipe e pouca experiência. Isso não pode funcionar. Isso não dará certo.

 

A esquerda tem a opção de simplesmente postar memes “que se ralem, eu não votei nele” numa espécie de versão mais radical de “eu não bati panela” ou “eu não votei no Aécio”. Uma outra opção – menos confortável, é verdade – é transformar a crise em uma janela de oportunidade para a sua reinvenção, retornando às bases periféricas não para “politizar”, mas para entender suas demandas mais vitais. Demorou meses para que as propagandas eleitorais do PT deixassem de falar repetidamente de Lula e apostassem em coisas simples e importantes, como a promessa de diminuir o preço do botijão de gás. Foi uma boa mudança, mas que chegou tarde demais.

 

Refundar a esquerda só será feito no momento em que nos damos conta de que, apesar de estarmos convictos de que a população errou na sua escolha, algumas de suas frustrações sobre segurança pública e corrupção, por exemplo, eram legítimas. Nós temos uma possibilidade de nos reinventarmos se aprendermos a ler a frustração popular que elegeu Bolsonaro.

 

Em resumo, o campo progressista precisa atuar como equilibrista. Primeiro, precisa fortalecer um cordão de contenção democrática, lembrando que não estamos numa ditadura e que o governo terá que seguir na linha. Tendo em vista seu vice, o general Mourão, tampouco temos a chance de tirar Bolsonaro. Por isso, tenho falado em redução de danos. Segundo, refundar os valores da esquerda, aprendendo alguma lição da vitória de Bolsonaro: existe uma carência profunda em uma identificação nacional, uma demanda por resgatar na política os valores de trabalho, comunidade e família, um apelo por uma vida segura e menos precária.

 

Pode ser que nos encontremos no novo DOPS. Mas essa é última coisa a ser dita. Não vamos banalizar a posição de ditador nem colocá-lo num local que ele talvez nem tenha competência para exercer. Antes dos porões, nós usaremos todos recursos democráticos precários que nos sobraram. Das crises e dos colapsos, nascem novas e criativas formas de resistência. O momento é duríssimo, mas existe muita potência vindo de baixo. É com essa energia que vamos resistir nos próximos quatro anos.

 

Rosana Pinheiro Machado é professora, cientista social e antropóloga. Atualmente é docente da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e coordenadora e co-fundadora da Escola de Governo Comum. Artigo originalmente publicado no The Intercept Brasil.