23 de outubro de 2019

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Orgulho de que e para quem?

Estamos no mês de Junho e o dia 28 é o dia que se comemora o orgulho LGBTQI+. Isso acontece nessa data porque em 1969, no bar Stonewall Inn, um grupo de pessoas LGBTQI+ se rebelou contra a invasão da polícia ao local. 50 anos se passaram e apesar de Stonewall Inn não ter sido […]

Estamos no mês de Junho e o dia 28 é o dia que se comemora o orgulho LGBTQI+. Isso acontece nessa data porque em 1969, no bar Stonewall Inn, um grupo de pessoas LGBTQI+ se rebelou contra a invasão da polícia ao local. 50 anos se passaram e apesar de Stonewall Inn não ter sido o primeiro movimento LGBTQI+ da história, ele ficou marcado pelo legado que deixou para a comunidade. Como nem tudo são flores, entretanto, torna-se extremamente necessário falar sobre a invisibilização de algumas letras que, apesar de sofrerem das mesmas opressões, muitas vezes são deixadas de lado por seus pares.

 

As drag queens e as mulheres trans, que em sua maioria eram negras e latinas, pobres e moradoras de rua, foram as primeiras a entrar na batalha de Stonewall Inn. Se ainda hoje, no Brasil, oitenta por cento das travestis assassinadas brutalmente são pretas, nos EUA da década de 60 não era diferente. Muitas dessas travestis e drag queens moravam em um parque vizinho ao bar e tinham o estabelecimento como único lugar de divertimento e também para ganhar algum dinheiro.

Essas pessoas que foram as mais violentas e combativas na revolta, se viram no pós-Stonewall jogadas de lado. Os organizadores da parada LGBTQI+ de 1973 deliberaram expulsar as drag queens e travestis do desfile, insinuando que as mesmas trariam uma imagem ruim à manifestação. Um grupo de radicais feministas apoiou a decisão de silenciamento. Sylvia Rivera, travesti porto-riquenha, subiu ao palco e depois de ouvir gritos de “fora”, “fora”, começou seu discurso com: “É melhor vocês todos ficarem quietos!”. A partir daí o discurso heroico, humano e ativista que defendia as pessoas presas por comportamento homossexual ou por vestir roupas não condizentes ao seu gênero demonstrou a dura realidade enfrentada pela letra T (Travestis, transexuais e trangêneros) e I (Intersexo) na luta pelo seu lugar inclusive dentro do movimento.

 

De lá para cá muita coisa mudou, os costumes são outros, a liberação sexual de Woodstock transformou o modo como vemos e expressamos o sexo na sociedade, entretanto, para nós, pouco temos a comemorar. No país que mais mata LGBTQIs na América Latina e o que mais mata transexuais no mundo (4 vezes mais do que o segundo lugar no ranking), não existe uma lei que garanta direitos aos LGBTQIs. Nem mesmo o programa de saúde integral da população LGBTQI+ saiu das mãos do Congresso. Em vez disso, saiu um decreto governamental de frágil manutenção e prática. Todos os outros direitos foram garantidos através de judicialização e, com inúmeras críticas a ela, vou deixar a principal para o texto, a sua fragilidade e subjetividade.

 

Acho que esse talvez tenha sido o grande erro do movimento LGBTQI+ brasileiro, a não construção de figuras políticas e a dependência do advocacy para a manutenção de programas e ações. Isso pode ter sido causado pela pouca presença real e efetiva da esquerda, além do lugar desconfortável que a militância de esquerda sempre nos reservou, na minha opinião, por acreditar que a classe trabalhadora a ser representada era a de homens, brancos, de meia idade, heterossexuais. Isso fez com que o movimento LGBTQI+, na busca por direitos, criasse uma relação política de dependência e não de prática revolucionária anticapitalista. Isso é demonstrado nas paradas LGBTQIs Brasil afora, especialmente a de São Paulo.

 

As contradições do capital são vistas em um show que reúne milhões de pessoas, o sumo da exploração do pink Money, muito pink washing e que não traz orgulho para ninguém. Ali, Burguer King faz sua propaganda, escondendo atrás de sua campanha pró-LGBTQI que é uma das empresas que mais explora mão de obra LGBTQI, pagando salários ínfimos por jornadas massacrantes de trabalho. A Uber, talvez o processo de terceirização do trabalho mais acachapante, onde seus motorista emprestam seus carros e ganham valores de fome, precisando agradecer ao “bico”, posa de boa moça amiga dos LGBTQIs, escondendo que vários de seus clientes foram e são atacados por seus motoristas explorados no Brasil pré e agora Bolsonarista. Talvez esse seja o preço a se pagar por um movimento que apesar de ser amplo e inclusivo, também por estar dentro de nossa sociedade é machista, racista e misógino.

 

No Brasil, o movimento LGBTQI nasce em meio à ditadura militar. Naquela época o regime perseguiu lésbicas, gays e principalmente travestis. Para além disso, em 69 por exemplo, foi instalada no Itamaraty uma comissão de investigação sumária com o objetivo de perseguir homossexuais. No mesmo ano após o AI-5, o órgão formulou uma lista e expulsou 44 membros. De lá para cá, pouca coisa mudou no serviço público.

 

Nós LGBTQIs jamais fomos contabilizados; o serviço público não fazia nossa vida confortável dentro dele, muito menos o movimento sindical, acostumado, como eu falei antes, a representar um público masculino, heterossexual, branco de meia idade. O novo sindicalismo brasileiro sempre foi avesso a mulheres e LGBTQIs nos seus postos de decisão e poder. A Condsef, criada em 1990, só criou seu coletivo LGBTQI+, que funciona com poucas mãos de um núcleo duro e aguerrido, 29 anos depois de sua fundação.

 

Essa que vos escreve é a primeira travesti preta a ocupar um posto de direção de um sindicato filiado a essa confederação, e talvez seja a primeira da base da CUT. Esse protagonismo, ao contrário de ensejar comemorações, expõe como navalha na carne – além de todas as dificuldades que LGBTQIs sofrem em casa, na escola e no acesso ao mercado de trabalho pela sociedade capitalista exploradora que nos mói e objetifica – a realidade do próprio serviço público, que nos coloca como pessoas indignas de estarmos ali, ocupando esses espaços.

 

Para não dizer que não existe luta e orgulho, posso dizer que sou uma travesti preta feliz, realizada e orgulhosa de ser quem eu sou, mas que pouco me orgulho quando olho para as minhas irmãs e irmãos trans e vejo o abismo que nos separa. Temos orgulho de nós, não podemos ter orgulho daqueles que nos diferenciam.

 

 

Dandara Felícia Silva Oliveira, mulher trans empregada da Ebserh, é diretora do Sindsep-MG