13 de agosto de 2020

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Qual normalidade? O Brasil depois da pandemia

Mas será que é para essa normalidade, marcada

Nestes mais de dois meses após a decretação de calamidade e a adoção do isolamento social por governadores em todo o país para frear o contágio pelo novo coronavírus, uma questão recorrente é sobre como será a retomada da economia quando tudo voltar ao normal. Mas será que é para essa normalidade, marcada por um modelo de desenvolvimento econômico predatório, baseado na destruição da natureza e que causa desigualdade e injustiça social e tão escancarado durante a pandemia, que a vida deve voltar?

 

O economista Ricardo Abramovay, professor do Programa de Ciência Ambiental do Instituto de Energia e Ambiente (IEE, d Universidade de São Paulo) e autor de Amazônia: Por uma Economia do Conhecimento da Natureza, Ricardo Abramovay, defende que não. “Temos de incorporar na nossa discussão pós pandemia não as formas pelas quais o país vai crescer. Mas as perguntas centrais são: crescer pra quem, pra onde e pra quê. Precisamos de uma luta por crescimento econômico baseado em valores, como o valor da dignidade humana e dos seres vivos – um conhecimento profundo dos povos tradicionais que os macroeconomistas deveriam ouvir ao planejar o novo crescimento econômico”, disse em debate promovido nesta quinta-feira (21), pela iniciativa Fé no Clima, do Instituto de Estudos da Religião (ISER).

 

Não há dúvidas de que precisamos de crescimento, segundo Abramovay. “Mas crescimento de alimentos saudáveis, de saneamento básico, de educação de qualidade, de dignidade, de direitos humanos, de interrupção do massacre das populações negras que vivem nas comunidades. Claro que precisamos de riqueza. E não é qualquer riqueza que nos interessa. Dizer que importante é que a economia cresça independentemente do que ela produza poderia ser válido 50 anos atrás. Hoje em dia isso é inadmissível. Crescer desmatando, exportando commodities não nos interessa.”

 

Para o economista, é um privilégio para o país ter suas populações indígenas e toda a sua cultura espiritual e material que podem enriquecer “a nossa existência de uma forma que dificilmente um celular vai poder fazer”.

 

Economia da floresta

E essa cultura material de povos tradicionais a que se refere é algo que pode ser estratégico ao desenvolvimento brasileiro – a economia da floresta, conduzida pelas populações indígenas, e não pelos que vivem da sua destruição.

 

“A economia do conhecimento da natureza evidentemente passa por conhecimentos tradicionais e pela junção entre esses conhecimentos tradicionais e científicos, o que o ativismo que existe hoje na Amazônia vem fazendo em uma escala muito interessante. Organizações como o Instituto Socioambiental e o Imazon, entre outras, têm uma relação de fertilização recíproca com as populações tradicionais e há empresas que estão querendo participar disso. Isso abre um caminho de desenvolvimento para que o Brasil deixe a retaguarda da inovação tecnológica do mundo contemporâneo e passe a ter um papel de destaque pela economia da floresta.”

 

Abramovay considera que as possibilidades oferecidas pela biodiversidade da floresta equivalem a uma “Biblioteca de Alexandria” na qual o país está permitindo que se ateie fogo. “Não podemos deixar que isso aconteça em nome dos povos que vivem na floresta e também em nome dos interesses estratégicos do Brasil, porque este é o caminho pelo qual o país vai poder se afirmar no mundo. E não como exportador de produto de baixo valor, como carne e soja, mas como exportador de conhecimento e informação dos povos tradicionais.”

 

“O normal é que houvesse respeito entre todos”

A “normalidade” também é questionada pela líder indígena Sônia Guajajara. Para ela, normal seria que, em vez de invadir o Brasil como fizeram os portugueses, com toda aquela violência, tivesse havido um encontro respeitoso, quase que uma visita amistosa de nações amigas. Do mesmo modo, não teria havido a escravidão e todo aquele período sangrento, cimentando o domínio da cultura europeia sobre a dos brasileiros antes de Cabral e dos africanos.

 

“O normal é que houvesse respeito entre todos. Então quando se fala de voltar à normalidade, de qual está se falando? Dessa velha normalidade, onde a sabedoria dos povos indígenas é desprezada porque não foi construída na academia? Mas é difícil para o índio ensinar na universidade porque não tem teoria”, disse.

 

Para Sonia, esse debate não pode estar dissociado da questão da empatia, que aflorou em muitos setores durante a pandemia de covid-19, da concentração da terra nas mãos de poucos latifundiários e o entendimento do verdadeiro sentido da terra.

 

Até porque, na perspectiva dos indígenas, a pandemia reforçou a as desigualdades e os problemas históricos, aumentou o desmatamento, as queimadas, as invasões de terra, os garimpos ilegais, pentecostais querendo entrar em etnias que vivem voluntariamente isoladas. Sem contar as epidemias virais, econômicas, vírus trazidos propositalmente para contaminar esses povos – o que acontece com rapidez pelo seu modo de viver comunitário e coletivo.

 

“Nós, indígenas, não somos vulneráveis. Estamos em situação de vulnerabilidade pelo descumprimento da legislação, o que nos deixa em situação de insegurança, principalmente territorial. A luta pela garantia dos nossos territórios é primordial porque a partir delas é que fazemos as outras disputas com o poder econômico e político. O território é sagrado”, disse Sônia.

 

A liderança destacou ainda que o medo diante da gravidade da covid-19 é um dos pontos que une todas as pessoas. E que é preciso destacar outros para que seja possível construir um outro padrão de sociedade e de normalidade. A luta pelo território é um desses pontos e não é difícil entender as razões.

Assista à integra do debate:

Fonte: Rede Brasil Atual