17 de novembro de 2018

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Vencemos no passado e venceremos no futuro

Gilberto Maringoni     A maior proeza de Jair Bolsonaro não foi ter vencido as eleições. Foi ter imposto sua agenda para toda a disputa. E esse – contraditoriamente – pode ser seu calcanhar de Aquiles no governo. A mercadoria que prometeu vagamente entregar – “mudar isso que está aí” – pode não constar de seu […]

Gilberto Maringoni  

 

A maior proeza de Jair Bolsonaro não foi ter vencido as eleições. Foi ter imposto sua agenda para toda a disputa. E esse – contraditoriamente – pode ser seu calcanhar de Aquiles no governo. A mercadoria que prometeu vagamente entregar – “mudar isso que está aí” – pode não constar de seu estoque. Esse é tema para outro artigo. Quero me deter no caminho que percorremos até aqui.

 

Há uma pergunta essencial a ser respondida: por que, num país de 14 milhões de desempregados, com uma recessão sem sinais claros de reversão, em processo acelerado de desindustrialização e com serviços públicos rumando para o colapso, a agenda eleitoral se voltou para uma pauta claramente moralista e despolitizada?

 

E mais: como alguém considerado pela direção do PT como o adversário ideal a ser batido no segundo turno teve esse poder de agenda ao longo dos últimos meses?

 

Talvez a chave da resposta esteja em como o próprio PT decidiu encarar o enfrentamento nas urnas. Lula buscou controlar o leme da jornada ao se colocar como candidato até os 44 minutos do segundo tempo, ou seja, até meados de setembro, sem indicar um vice ou plano B.

 

Para isso, não priorizou a luta política aberta. Condenado e encarcerado, resolveu concretizar uma ideia de duvidoso efeito prático. A vertente traçada foi a de delegar tacitamente a direção de campanha aos seus advogados, que impetraram ações em cima de ações, numa comovente confiança no sistema jurídico brasileiro.

 

O caminho escolhido não foi o de questionar o governo Temer e seus representantes ocultos na campanha presidencial, mas o de mostrar Lula como vítima injusta de um processo fraudulento. É a mais pura verdade. Mas fazer da condição do ex-presidente o centro da campanha, ao invés dos problemas concretos vividos pela maioria dos brasileiros, foi aposta de alto risco. Em lugar de um julgamento de Temer e de suas reformas regressivas, Lula chamou para si a questão. Sua tática foi transformar as eleições em um plebiscito sobre si mesmo.

 

Percebendo a insuficiência dessa opção, ela veio acompanhada de outra: a saudade dos bons tempos, quando o Brasil crescia e os salários idem. O país era respeitado no mundo e o futuro parecia radioso. Parte disso é verdade.

 

Saudade é um sentimento seletivo, como se sabe. Tende a ser unidimensional. Escolhemos o que lembrar e escolhemos o que esquecer. Diferentemente de olhar criticamente o passado para entender o presente – a base do estudo da História – a saudade tem os dois pés no idealismo.

 

Assim, os pilares da campanha petista até o final do primeiro turno tinha na vitimização e na saudade suas linhas mestras. Ou seja, em sentimentos fora da política e do confronto.

 

Uma terceira linha de conduta foi agregada a essas vertentes. Se o centro de tudo seria Lula, faltava uma peça no quebra-cabeças. O raciocínio se tornaria redondo com o mantra “Haddad no governo, Lula no poder”, um mal ajambrado slogan retirado da campanha de Héctor Cámpora (“Cámpora no governo, Perón no poder”) à presidência da Argentina, em 1973.

 

Esse era o complemento para sustentar o nome de Lula como candidato até a undécima hora, transformando Fernando Haddad em mero biombo seu. Além de desqualificar o real candidato petista, a formulação o deixou na sombra até depois de iniciada a campanha.

 

Haddad não participou de debates, sabatinas e entrevistas até o final de setembro. Isso dificultou muito a fixação de seu nome e a politização da campanha. Como subproduto, os pouco mais de dois minutos de horário televisivo que o PT dispunha no primeiro turno foram tomados pela tentativa de colar seu nome ao de Lula. Não houve nenhum ataque a Jair Bolsonaro. Nenhum, o que é incrível!

 

Traçados esses vetores todos, uma resultante sobressai: o PT optou por despolitizar a campanha na primeira volta, deixando uma avenida aberta para que algum aventureiro aparecesse.

 

Quando Jair Bolsonaro sofre o atentado em 7 de setembro, a campanha muda de rumo. Hospitalizado e com risco de vida, ele também se torna vítima. Lula perde a primazia dessa condição.

 

Com isso, o ex-capitão consegue, enfim, emplacar a sua agenda como central. Sem política, valendo-se de medos e preconceitos arraigados na população, Bolsonaro adiciona mais um ingrediente, o antipetismo. E aqui evidencia-se um antipetismo de novo tipo. Trata-se de uma repulsa popular ao partido, diferentemente de sua versão conservadora e de direita, que via na ascensão dos pobres um problema a ser vencido.

 

O novo antipetismo sensibilizou os órfãos do próprio PT, as vítimas da depressão de 2015-16, promovida por Dilma e Joaquim Levi. Os que aceleradamente perderam empregos, oportunidades e enfrentaram uma situação econômica que se degradava aceleradamente. Os que confiaram no discurso desenvolvimentista da candidata petista naquelas eleições e viram seu contrato selado através do voto ser rompido sem explicação, com a adoção do programa de Aécio Neves para a economia. Esses formam a massa de dezenas de milhões que entraram em desespero e caíram na conversa fácil da propaganda fascista e de suas respostas simples para problemas complexos.

 

É preciso olhar para essas linhas de força traçadas na campanha de 2018 e que tiveram raízes fincadas nos últimos anos para que tentemos entender o que aconteceu. Claro, há Ciro Gomes e sua vergonhosa omissão na luta, desrespeitando até mesmo seus apoiadores e correligionário. Há também o uso criminoso do WhatsApp, que precisamos compreender mais profundamente.

 

Mas se não focarmos as avaliações na política e em nossas insuficiências, empurraremos o problema com a barriga para mais adiante. Podemos nos confraternizar em nossas dores e frustrações – o que deve ser feito – e fazer como os republicanos espanhóis após a dramática derrota da Guerra Civil (1936-38). Diziam eles: “Perdemos, mas nossas canções são incomparavelmente mais belas”.

 

Não há dúvidas. Não apenas nossas canções são mais belas, como reunimos o que há de melhor no mundo do trabalho, da academia – com destaque para os estudantes -, da cultura, das artes e da inteligência, enfim. Temos ao nosso lado o mais importante líder popular de nossa História, um candidato – Fernando Haddad – que se agigantou na jornada e uma liderança de primeira grandeza, como Guilherme Boulos. E mais do que tudo, unimos a esquerda, os democratas, parte dos liberais, dos nacionalistas e dos que lutam por um Brasil socialmente justo.

 

Temos de cumprir um roteiro doloroso, chorar sozinhos e juntos., tomar fôlego, entender racionalmente o que aconteceu e voltarmos à ação.

 

Lamber nossas feridas está sendo duro. Encarar a besta-fera fascista exige coesão e comunhão de propósitos. Que o exame e as avaliações desse período não nos dilacerem, mas consolidem a união pela resistência e superação. O fascismo não permanecerá.

 

Já vencemos no passado e venceremos no futuro.

 

Não estamos sozinhos. Somos milhões.

 

 

Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC. É também jornalista e cartunista. Artigo publicado originalmente na Revista Fórum.